Desativando a bomba do racismo

Correio da Bahia — 09 de dezembro de 2001

Reportagem de Marcos Vita

Perfil

Desativando a bomba do racismo

Vanda Machado faz trabalho inédito com auto-estima de crianças negras

[Transcrição em andamento a partir da digitalização enviada ao acervo. Alguns trechos podem apresentar pequenas lacunas devido à qualidade do material original.]

Menina não podia ser um dos anjinhos do Nosso Senhor no ano. Só nas brincadeiras os pretos eram anjos. Nos bancos da escola, a professora elogiava os cabelos lisos da garota loira. A turma de meninos da escola ria. As cenas de discriminação no interior do município acompanhadas pela educadora Vanda Machado na infância. Ambas influenciaram na elaboração do seu projeto para o aprendizado de crianças negras por meio da valorização da auto-estima, do ensino dos mitos afro-brasileiros e de noções do iorubá. O trabalho, inédito no país, é feito há três anos com os 40 alunos de 1ª a 4ª série da Escola Municipal Eugênia Anna dos Santos, situada no terreiro do candomblé Ilê Axé Opô Afonjá, um dos mais tradicionais de Salvador.

As crianças, quase todas negras e moradoras das comunidades vizinhas ao terreiro, têm o hábito de saudar o visitante com os nomes em iorubá. Aiyê, que significa “bom dia”, e sejabó, “boa noite”, respectivamente. A Nigéria é uma parte do globo e a Bahia há dois séculos como mão-de-obra escrava. Os pagãos, grupos étnicos que falavam a língua iorubá, habitam a cultura baiana, sobretudo com a resistência religiosa do culto aos orixás. Para eles, a natureza é sagrada.

Baseado na história do povo e nos mitos dos orixás, Vanda Machado elaborou livros didáticos que servem como base na pedagogia da escola. “Com esses meninos, faço a reparação de minha alma de criança negra que era discriminada e não sabia por quê”, afirma a educadora. O iorubá está no nome do projeto de educação, Irê Ayó (“caminho da alegria”), elaborado em 1999 como base em dissertação de mestrado de Vanda. Os nove professores da escola realizaram reuniões e seminários avaliando o conteúdo pedagógico desenvolvido com os alunos.

A capacitação deles para a cultura africana já está em parceria com a Escola de Teatro da Ufba. “A proposta é reconstruir a imagem do negro para as crianças e desenvolver a auto-estima delas como cidadãs negras. Para tanto, é como se estivéssemos que desenvolver uma bomba por dia”, diz Vanda. Uma dessas bombas é a fala de livros didáticos recomendados pelo Ministério da Educação com os quais se possa trabalhar a auto-estima da criança negra.

Outra bomba é o bombardeio da mídia com imagens diárias pejorativas do negro na sociedade brasileira. “As fotografias mostram o negro sempre sujo e na miséria. Nos jornais, o negro está sempre na página policial, trancado e humilhado. Enquanto isso, o branco está feliz nas colunas sociais, tem espaço limpo e de riqueza”, analisa a educadora.

Para resolver problemas das futuras gerações, Vanda Machado escreveu Irê Ayó — o Mito da África e o Povo de Aruanda (Edufba), ao lado do marido, o ator Carlos Petrovich. O primeiro traz contos de orixás que contextualizam noções básicas da língua iorubá. Já Profissão de negro é uma espécie de manual de conduta de professores a partir de experiências vividas na escola.

Vivemos na escola. Todos seguem preceitos da comunidade do terreiro, como vestir branco às sextas-feiras. “A cultura afro entra contextualizada nas estórias, em peças teatrais e em números musicais desenvolvidos pelos próprios alunos”, conta Vanda. O trabalho da educadora já foi apresentado em outros estados brasileiros e na Nigéria. “Esse é um projeto de reparação para crianças afro-brasileiras, uma gota d’água num oceano, mas já é uma gota”, afirma Vanda.

Homem produto do meio

O próprio ambiente do terreiro favorece o aprendizado. Fundado em 1910 pela Mãe-de-santo que dá nome à escola, o Ilê Axé Opô Afonjá foi tombado no retrato como patrimônio cultural nacional pela Iphan. No local, moram 40 famílias de pessoas adeptas do candomblé. Além de conviverem com os rituais da religião africana, as crianças têm oportunidade de aprender a cultura afro com os próprios moradores do terreiro. “Os meninos convivem com os personagens vivos dos livros que leem na escola e, conversando com eles, aprendem mais ainda”, diz Vanda Machado.

Há também no terreiro o primeiro museu do candomblé do país, o Ilê Ohun Lailai (casa das coisas antigas, em iorubá), que guarda em 198 peças um acervo de roupas, instrumentos e adereços da mãe-de-santo e orixás, fotografias históricas e utensílios do ritual de candomblé.

O trabalho da educadora é valorizado por alunos e pela comunidade. “Ela luta para fazer os meninos crescerem. As crianças se enxergam como um espelho”, afirma Diná de Xangô, 73 anos, há 39 moradora do terreiro. “Vanda é muito verdadeira e harmônica, o que favorece o crescimento das crianças”, afirma Marina Cerqueira, 48 anos, diretora da escola. Aos 59 anos, Vanda Machado é mesmo um exemplo para as crianças da Eugênia Anna dos Santos.

Leitura paralela

Filha de santeros de Oxum — espiritualmente —, Vanda Machado nasceu em São Felipe, no interior baiano. Começou o trabalho pedagógico na escola Joana D’Arc, que criou em 1968 em Paripe, subúrbio de Salvador. O colégio funcionou por 21 anos. “Ali, comecei a me preocupar com as raízes culturais africanas. A escola ficava no terreno em que havia um terreiro de candomblé”, conta.

A educadora é conhecida por desenvolver uma leitura paralela à universidade, confrontando conteúdos e métodos tradicionais. A partir dos livros e das lições de Martin Luther King Jr., começa a ver qual seria a missão no mundo enquanto educadora: “não se inseriria na cultura branca ou de peito aberto contra a discriminação. Preferi a segunda opção”, arrebata.

A educadora já teve participação em vários projetos do movimento negro, mas não se considera militante. “Ela fala mais pelos conflitos, mas com possibilidades. Falar que os africanos não tiveram escrita é o que significa dizer que o mundo é um lugar sem história”, afirma.

Num momento de reflexão, a educadora diz ter conseguido se livrar da lembrança incômoda da impossibilidade de ser anjo nas festas religiosas quando criança. “Resolvi a questão no Natal Negro do ano passado, do qual fui consultora. Nada menos que 68 crianças negras vestidas de anjos estiveram em plena Praça da Sé. Aquilo regenerou a minha alma”, diz Vanda Machado, aliviada.

A versão completa desta reportagem integra o acervo histórico de Vanda Machado e pode ser acessada neste link , preservando registros fundamentais de sua trajetória na educação, na cultura afro-brasileira e na luta antirracista.

https://drive.google.com/file/d/1ctSpPtiOgcBqIclktnDG__5HwEaQsF-X/view?usp=drive_link

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