A TARDE — Opinião
Salvador, quarta-feira, 16/07/2008
ARTIGOS
Capoeira: patrimônio brasileiro
VANDA MACHADO
Na primeira semana, foi o Mestre Bola Sete que fez a roda integrativa. No meio da tarde, ele entra no Forte de Santo Antônio Além do Carmo. Entra na sua academia como quem entra num santuário. Olha para o alto como quem busca proteção. Os jovens capoeiristas entram silenciosos. O som do gunga chamou. Um por um foi tomando o seu lugar no bater com o mesmo respeito que um alabê dá início à roda dos orixás. O médio e o viola parecem comentar a fala encantada do gunga.
Agora, os três berimbaus dançam e cantam nas mãos hábeis dos tocadores. O pandeiro, o atabaque e o agogô se revezam com delicadeza de mão em mão. Todos participam de tudo. Tudo pertence a todos. Nesta semana, foi a vez do Mestre Boca Rica. O ritual se repete. Tem banco para quem vai olhar e banco para quem vai participar. A minha memória transita entre um tempo remoto e a emoção de estar ali naquele lugar com aquelas pessoas — capoeiristas educadores.
Sentei perto de Marcus Vinicius, menino capoeirista neto do Mestre Pelé da Bomba. Entrou no curso como ouvinte e participa como gente grande. Sua primeira pergunta brotou como semente viva: quem inventou o racismo? Também já me ensinou: a gente não toma o berimbau da mão do mestre. A camisa é por dentro das calças. Tem que procurar saber como vai o mestre, conversar com ele, mesmo que ele esteja zangado.
É a primeira vez que vejo a capoeira de dentro pra fora. A convivência afetiva com a turma me fez partilhar com todos os olhos e a escuta da minha alma negra. O mestre puxa a ladainha e eu acompanho como os outros. O mestre é o pai, é a imagem ancestral saída das páginas da história da resistência negra neste País.
Antes do jogo, a luta é treino. A ginga desconstrói o corpo rígido. É equilíbrio e desequilíbrio. É sedução no corpo dançante de homens e mulheres que empreenharam deste saber no navio negreiro para dar à luz, movidos pela esperança da liberdade construída. A ginga é o pensamento africano solto no corpo da gente. É diálogo com o mundo.
Na sociedade, temos gingado individual e coletivamente encontrando brechas para a cidadania plena. Às vezes recuamos e refletimos para uma nova investida, num aprender de si mesmo. Entendo a ginga como instrumento para a consciência histórica e identitária nas escolas, em todos os níveis da educação formal, permitindo a releitura do passado e a compreensão do presente.
A cantiga continua. Eu me banho da cantiga e da história e ganho o meu direito de pertença quando ainda peço licença para nascer. O ambiente é acolhedor. Paulo, o filho do mestre, convida: vamos gingar? Penso rápido. Ainda não é minha hora e agradeço emocionada.
Vanda Machado | Coordenadora do Curso Capoeira Educação para a Paz e do Projeto Irê Ayó, da Secretaria de Cultura do Estado.
A versão original deste artigo integra o acervo histórico de Vanda Machado e encontra-se preservada neste link através da seção de memória jornalística e documental.
https://drive.google.com/file/d/1JwnvS9Zhrv_UgUABkBfESHPSfR_ujKnd/view?usp=drive_link

