22/07/2003
Estabelecimento foi o primeiro a incluir no currículo aulas sobre a cultura africana
Manu Dias
José Bonfim
Explicações sobre os mitos, os orixás, a tolerância religiosa, tudo isso marca nas discussões sobre temas tão polêmicos são demonstrados por crianças pobres em um lugar onde a última palavra é sempre da mulher. A Escola Fundamental Eugênia Anna dos Santos, primeira a incluir em seu currículo cultura africana, tem servido de exemplo para brasileiros e estrangeiros. A iniciativa é respaldada pelas Leis de Diretrizes e Bases (LDB) de 1996, que orienta a educação no país.
Com sorriso aberto, meninos e meninas saúdam os visitantes: Kuawó! E logo explicam que a palavra pertence ao dialeto iorubá, da Nigéria, país do continente africano de onde vieram milhares de ancestrais seus, acorrentados em navios, na condição de escravos, no período em que essa prática vigorou no Brasil.
Em seguida, os estudantes explicam que estão mobilizados pelo atual trabalho bimestral. “Quando o mundo havia nada plantado. Mas morava aqui um caçador chamado Okô. Um dia, Olorum — que criou tudo — chamou-lhe e disse para fazer as plantações porque as plantas, as árvores, os frutos, as raízes iriam embelezar o mundo e servirem de remédio para as pessoas. Okô fez tudo isso, mas hoje os seres humanos estão destruindo o meio ambiente”, a didática explicação é de Sabrina Santos Silva, 9 anos, 4ª série, moradora do bairro de São Gonçalo do Retiro.
Está no currículo o aprendizado sobre os mitos africanos. Agora é Okô, relacionado às plantações e, por festividades iniciadas em junho, mês da festa de São João e das comemorações pelas colheitas. No bimestre passado foi a estrela. Por quê? A resposta é dada por Edvânia Vieira Cerqueira, 10 anos, cursando a 4ª série: “Uma estrela é fazer os homens desistirem da guerra. Em abril e maio, os Estados Unidos estavam atacando o Iraque e nós queríamos paz”.
Edvânia se refere ao Projeto Yá-Lê (mulher favorita). Esse e os outros projetos sobre orixás fazem parte do Irê Ayó (caminho da alegria) — Em busca de uma Pedagogia Nagô, um dos trunfos da grade curricular da escola.
AFONJÁ
Localizada dentro do Terreiro de Candomblé Ilê Axé Opô Afonjá, a escola foi a primeira a incluir aulas sobre a cultura africana, em 1999. Depois, as outras escolas municipais de Salvador acompanharam a experiência.
Em janeiro deste ano, quando o presidente Lula lembrou aos secretários de Educação estaduais a necessidade dos currículos do ensino fundamental incluírem matérias sobre a cultura africana, seguindo a LDB, a escola já completava quatro anos de ensino dessas disciplinas.
Nos últimos dois anos, as visitas de pedagogos e de estudantes de escolas particulares e públicas têm aumentado. Neste mês, os visitantes foram estudantes norte-americanos, que vieram à Bahia por meio de uma organização não-governamental (ONG) Experimento.
Entre curiosos e surpresos, olhavam cada detalhe do terreiro e faziam perguntas sobre os ícones do candomblé, procurando conhecer tudo que podiam da Sociedade Cruz Santa do Axé Opô Afonjá. A coordenadora pedagógica Marinilva Cerqueira de Almeida, afirma que sente-se recompensada e satisfeita pelo interesse demonstrado pela escola.
As exposições, leituras, escritos sobre os orixás são feitos a partir da realidade atual, comenta a professora. Assim, os estudantes terminam contemplando todas as áreas do conhecimento e suas linhas norteadoras, ressalta Alana Márcia de Oliveira Santos, funcionária da Secretaria Municipal de Educação. Seu trabalho no desenvolvimento das oito escolas municipais que integram o Projeto Escola de Referência, aquelas que seguem essa nova metodologia de ensino, fazendo uma releitura dos ancestrais dos afro-descendentes.
A versão original desta reportagem integra o acervo histórico de Vanda Machado e encontra-se preservada neste link.
https://drive.google.com/file/d/13YF5Da2DcOu6OBBCS_XLyvDnUo4rg1kg/view?usp=drive_link

