Em agosto de 2001, a Escola Municipal Eugênia Anna dos Santos, situada no Ilê Axé Opô Afonjá, ganhou destaque nacional ao aparecer na capa do Jornal do MEC, publicação oficial do Ministério da Educação. A chamada anunciava: “Escola baiana ensina Português-Iorubá”.
A reportagem “Respeito à ancestralidade”, assinada pela jornalista Beth Almeida, apresentou ao país uma experiência pedagógica construída dentro do terreiro, onde crianças aprendiam história africana, oralidade nagô e língua iorubá junto aos conteúdos escolares formais.
O texto acompanha a trajetória da estudante Ana de Souza Pereira, então com nove anos, e de sua mãe, Marielde de Souza Pereira. Evangélica, Marielde decidiu matricular a filha na escola justamente pela possibilidade de contato com a cultura afro-brasileira. Na matéria, ela afirma:
“Somos negros e Ana precisa saber a história do nosso povo.”
A reportagem explica que a escola integrava o Projeto Irê Ayó, concebido por Vanda Machado, e desenvolvia um trabalho baseado em lendas nagô, mitos africanos, música, vocabulário iorubá e valorização da identidade negra.
As crianças aprendiam expressões cotidianas em iorubá, utilizavam palavras da tradição nagô nas atividades escolares e liam histórias africanas como parte da formação pedagógica. A matéria descreve um ambiente onde ancestralidade não aparecia como tema isolado, mas atravessava o cotidiano da escola.
Em um dos trechos mais importantes da reportagem, Mãe Stella de Oxóssi resume a dimensão política do projeto:
“Nosso assunto é com a Educação dessas crianças.”
O texto também registra os impactos desse processo na autoestima dos estudantes. A diretora Marinilva Almeida comenta:
“O ensino da língua iorubá valoriza a auto-estima do aluno.”
A reportagem ainda relaciona o trabalho desenvolvido no Afonjá ao debate sobre diversidade cultural no Brasil e ao papel da escola pública na construção de outras referências de pertencimento para crianças negras.
Publicada dois anos antes da Lei 10.639/03 tornar obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira nas escolas, a matéria documenta uma experiência que já colocava em prática discussões que mais tarde seriam incorporadas às políticas educacionais nacionais.
A versão completa desta reportagem integra o acervo histórico de Vanda Machado e encontra-se preservada neste link
https://drive.google.com/file/d/1WjP2Gk5HGnZthLsfpiZ6exuPmi9fEAOz/view?usp=drive_link

